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Crise – Dicionário Prático de Portugal

 - by Paula Barros

E eis o primeiro termo do nosso dicionário. Aqui a ordem alfabética não interessa muito, mais interessa o conteúdo. Ora vejam lá se concordam ou é preciso mais qualquer coisita:

Crise, s. f. , estado ou situação caracterizado por penúria e debilidade económica. Este estado pode ser regular e constante (Portugal); ocasional (Alemanha); temporário e recorrente (EUA, Europa).
Exemplos de uso:

  • Lutar contra a crise, diz-se para indicar que se pretende tomar medidas contra a crise. O uso literal desta expressão, ou seja, executar as medidas para eliminar a crise, não é habitual.
  • É a crise!, exclamação, dito com ênfase no início e desvanecimento no ar no final da expressão, serve de  justificação para determinadas situações de dificuldade económica, como por exemplo, já não tenho clientes no meu café por causa da crise e nunca (jamais) porque este não presta ou está muito caro ou não é bem servido ou na mesma rua há pelo menos 20 cafés.

Frases da imprensa:

  • A crise obrigou-os a abdicar de uma vida confortável1, enquanto ganhavam bom dinheiro, não se lembraram de poupar e consumiam desregradamente, agora pagam pelos seus pecados.
  • Crise: Deputado esfomeado reivindica jantar na cantina da AR2, claramente influenciado pelo termo crise, o Ricardo Gonçalves, considera que os 3700 euros que ganha para nos representar não chegam para pagar os seus jantares.
  • Sim, Portugal pode vencer a crise3, esta expressão serve no seu sentido figurado para acalmar os espíritos mais inquietos. De facto, pode ser possível vencer a crise, mas como nunca nada é feito, o mais provável é isso não acontecer. Além disso como iríamos viver sem crise? Quem culparíamos da nossa ineficácia?

Imagens na Net:

Do blog monólogos sobre o bom jornalismo

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1 in Público, 12.07.2010;
2 in Expresso, 05.10.2010
3 in Diário de Notícias, 20.11.2010

Têm mais exemplos, mandem-nos para ilustração do nosso dicionário prático

Dicionário prático de Portugal

 - by Paula Barros

Mas quem é que entende este país? Algum de vocês?
Estamos à beira da rutura e os portugueses querem greve, o governo quer TGV, a oposição não sabe bem o que quer, mas isto é que não quer; os trabalhadores querem mais 5% e os desempregados querem subsídio; os que já nem desempregados são (por limite de prazo) querem subsídio; a classe média quer WIIs, Playstations, carros e pagar a casa; os ricos que os deixem em paz; os juízes, coitadiiiiiiinhos querem o seu merecidíssimo subsídio de renda no desgostoso valor de 700 euros, (os professores é que não sabiam desta, senão em vez de não quererem avaliação, faziam era greve para terem direito ao mesmo subsídio).

Resolvi “criar” um dicionário prático que ajude a entender Portugal. Sobretudo que ajude a perceber o que é que podemos querer e do que é que devemos prescindir. Na minha “capacidade” de “dicionarista” convido-vos a juntar os termos que definem o nosso lindo país.

Aceitam-se muitas sugestões!

Vá lá!

Haiti

 - by Paula Barros

No dia 12 deste mês, deu-se o golpe, diremos, final sobre este país. O Haiti, o mais pobre país do ocidente, a sul de Cuba, a 1 hora de Miami;  paredes meias com a mais rica República Dominicana recebeu a estocada que o prostrou de morte.

O passado

Haiti - Foto do Ano 2008 Unicef

UNICEF - Foto do Ano 2008, bairro de lata no Haiti, por Alice Smeets

Há muito anos que reinava a pobreza extrema, onde metade da população vivia em miséria abjecta, o salário de um operário era de 1,75 dólares por um dia de trabalho, o que levou estudantes haitianos a protestos constantes pelas ruas de Port-au-Prince em 2006 e isto para os afortunados 30% que trabalhavam.

A fome era outra questão, num território devastado por uso intensivo da terra e abate da floresta, a produção reduzida, os maus acessos e claro a falta de rendimentos. A fome era de tal forma um problema grave que se deram o que se chamou de tumultos da fome em 2008.

A primeira república negra, independente desde 1804 tem um estado fraco, debilitado pelas constantes lutas de poder, depois de 1959 seguiram-se anos de ditadura com Duvalier, e apenas em 1991 foi eleito o primeiro presidente de forma democrática com Jean Baptiste Aristide. Mas a eterna sede de poder não parou e há quem diga que até há mão americana e francesa resultando num golpe de estado em 1994 que depôs Aristide. Com esta instabilidade, a fome e o desemprego gerou-se violência que escalou de tal forma que em 2006 era totalmente desaconselhado ir ao Haiti.

Em 2008 além dos tumultos, o Haito foi ainda assolado por 4 furacões, aumentando o estado de desolação do país levando consigo 800 vidas. Dizia-se então que era a maior catástrofe que o Haiti havia sofrido em décadas.

Hoje

Terramoto no Haiti, Jan. 2010, no Daily Motion

Numa altura em que  o esforço dos capacetes azuis havia contribuído para um aumento da estabilidade e para um decréscimo acentuado de violência; num ainda ténue aumento de emprego – em 2009 uma conferência de investidores levou ao Haiti patrões de grandes industrias e Bill Clinton para atrair capital estrangeiro. Quando já se começava a falar em esperança, chegamos a 12 de Janeiro de 2010,  um terramoto na escala de Richter de 7,4 arrasa o pouco que estava de pé, matando milhares, desalojando os restantes, deixando um cenário que nem a melhor guerra seria capaz de imitar.

O Futuro?

Será o futuro desta gente apenas uma continuação do que já era? Chegámos todos lá mais ou menos desorganizados, cheios de boas intenções, dar de comer e tratar as feridas, ajudar a enterrar os mortos e a limpar as ruas; continuar a lutar contra a fome dando comida e … depois? Será que os vamos abandonando ao seu destino, depois de reposta a miséria anterior a que já estavam habituados?

Mas porquê? Não podemos aprender com as muitas situações extremas, onde tentámos ajudar e ir um pouquinho mais longe? Afinal é um país pequeno, assim meio Portugal.  Ajudar, era, isso sim, ajudar a reconstruir de forma sustentada e a pensar em furacões, em falta de energia, ajudar era ter os nossos arquitectos e engenheiros planear construções a preços adequados de construção fácil e capazes de aguentar e durar naquelas condições; ajudar era mostrar como tirar partido da terra de forma sustentada, tirar partido das condições climatéricas; ajudar, era levar o conhecimento lá. Era ensinar a viver com condições dignas. Isso sim, era ajudar. Era nós darmos de nós não só o dinheiro, absolutamente essencial, mas também o conhecimento, era darmos o nosso tempo para contribuir de forma organizada na reconstrução daquele país. Lembrem-se de Niemeyer e da construção de Brasília: em 3 anos milhares de trabalhadores cosntruiram uma cidade imensa!

Se o apelo à ajuda for global, com um pouquinho de cada um, até podíamos fazer muito por eles. E quem sabe daí tirar uma lição sobre como ajudar os mais pobres, dos mais pobres neste mundo.