Fazer greve
Eu não fiz greve. Nem faria. Nem seria assim que demonstraria o meu descontentamento com uma situação laboral. Sinceramente, a mim parece-me que esse meio de reivindicar direitos laborais pertence ao passado, quando as pessoas não tinham direito a mais que não fosse trabalhar de forma escrava 10 ou mais horas a troco de um salário miserável que mal chegava para alimentar uma boca da família.
Hoje, que temos empregos para a vida, que temos acesso a subsídios de Natal, de Férias, de Desemprego, de Família, Instituições de Saúde, reforma garantida, estradas e meios de transporte baratos, parece-me não só abusivo como também de uma grande desconsideração para com aqueles que não podem fazer greve e que esses sim são os mais afetados pelas reformas que aí vêm. Sim, porque não esqueçamos que os 3 milhões que hoje fizeram greve são trabalhadores bem protegidos. Os restantes 40% foram trabalhar seja por não poderem prescindir do dinheiro nem do trabalho, seja por consciência.
Não fiz greve, nem faria. Trabalhei, porque é um direito que me assiste: contribuir para melhorar a situação económica em vez de parar e ficar a olhar para ontem. Chocou-me a paragem de Autoeuropa, chocou-me que, depois de terem encontrado uma forma de subsistir e de ainda por cima poderem ter este ano aumentos salariais os trabalhadores da Autoeuropa tenham feito greve. A solidariedade manifesta-se ajudando o país e não contribuindo para a sua ruína.
O trabalho, ouvi eu hoje, é um bem cada vez mais escasso e meus amigos, vêm aí tempos bem mais difíceis, esta greve ainda por cima sem uma verdadeira manifestação de protesto, com as ruas vazias, qual feriado ou domingo sonolento, de nada adianta, a não ser fazer poupar uns cobres ao estado e dificultar a vida a quem quer trabalhar. Esperem só até o FMI aí chegar e deitar as cartas do desemprego: ou qual será melhor: menos 5% no salário ou menos o salário completo?
Não fiz greve, nem farei nunca, porque se a ideia é tirar um dia de férias, posso fazer exatamente isso: tirar um dia de férias. De resto vou trabalhar, que ainda tenho muito para fazer!


Também não fiz greve nem nunca faria. Acho completamente estúpido que, quando nos desagrada a nossa situação económica (e não só) se faça greve, agravando ainda mais aquilo que já é mau.
É tão absurdo, como um médico que vê um doente a definhar, se recusasse a tratá-lo.
Quando as coisas estão mal, devemos contribuir ainda mais, para o bem comum, e não o contrário.
Mas, quem escreve…
“Hoje, que temos empregos para a vida, que temos acesso a subsídios de Natal, de Férias, de Desemprego, de Família, Instituições de Saúde, reforma garantida, …”
… demonstra um profundo desconhecimento da realidade actual, não só da nossa economia, mas também da economia mundial!!!!
Hoje não temos nada, como dado adquirido. Quem tinha empregos para a vida, subsídio de férias e de Natal e direito a reforma, são uma minoria cada vez menor (passe a redundância).
Eu NUNCA tive subsído de férias nem de Natal, e se me apetecer fazer férias em Agosto, simplesmente o meu rendimento é 0 (ZERO). Também nunca terei direito a reforma, porque quando lá chegar, já o conceito foi extinto.
Mas continuando com o que eu disse acima, hoje, a facilidade de se ter um blog na net (parece que só eu e o meu cão é que não temos), leva a que toda a gente opine sobre tudo, principalmente sobre aquilo que não percebe rigorosamente nada.
No seu perfil, diz que é Lexicógrafa. Eu pergunto: Numa Licenciatura em Letras, qual é a cadeira em que se aprende Economia?
Mas não se preocupe. Pressoas bem mais conhecidas, cometem o mesmo uso (e abuso) de opinar: Marcelo Rebelo de Sousa, Sousa Tavares, Nuno Rogeiro, Fernando Seara (comentador de Futebol e Presidente da Câmara Municipal de Sintra nas horas vagas), etc.
Todos estes “cromos” e muitos outros, percebem de tudo e mais alguma coisa!
Criou-se agora até um neologismo: “Tudólogos”, ou seja, (pseudo-)especialistas em tudo e mais alguma coisa.
Não queira ser “Tudóluga”.