Haiti

No dia 12 deste mês, deu-se o golpe, diremos, final sobre este país. O Haiti, o mais pobre país do ocidente, a sul de Cuba, a 1 hora de Miami;  paredes meias com a mais rica República Dominicana recebeu a estocada que o prostrou de morte.

O passado

Haiti - Foto do Ano 2008 Unicef

UNICEF - Foto do Ano 2008, bairro de lata no Haiti, por Alice Smeets

Há muito anos que reinava a pobreza extrema, onde metade da população vivia em miséria abjeta, o salário de um operário era de 1,75 dólares por um dia de trabalho, o que levou estudantes haitianos a protestos constantes pelas ruas de Port-au-Prince em 2006 e isto para os afortunados 30% que trabalhavam.

A fome era outra questão, num território devastado por uso intensivo da terra e abate da floresta, a produção reduzida, os maus acessos e claro a falta de rendimentos. A fome era de tal forma um problema grave que se deram o que se chamou de tumultos da fome em 2008.

A primeira república negra, independente desde 1804 tem um estado fraco, debilitado pelas constantes lutas de poder, depois de 1959 seguiram-se anos de ditadura com Duvalier, e apenas em 1991 foi eleito o primeiro presidente de forma democrática com Jean Baptiste Aristide. Mas a eterna sede de poder não parou e há quem diga que até há mão americana e francesa resultando num golpe de estado em 1994 que depôs Aristide. Com esta instabilidade, a fome e o desemprego gerou-se violência que escalou de tal forma que em 2006 era totalmente desaconselhado ir ao Haiti.

Em 2008 além dos tumultos, o Haiti foi ainda assolado por 4 furacões, aumentando o estado de desolação do país levando consigo 800 vidas. Dizia-se então que era a maior catástrofe que o Haiti havia sofrido em décadas.

Hoje

Terramoto no Haiti, Jan. 2010, no Daily Motion

Numa altura em que  o esforço dos capacetes azuis havia contribuído para um aumento da estabilidade e para um decréscimo acentuado de violência; num ainda ténue aumento de emprego – em 2009 uma conferência de investidores levou ao Haiti Bill Clinton e patrões de grandes industrias para atrair capital estrangeiro. Quando já se começava a falar em esperança, chegamos a 12 de Janeiro de 2010, um terramoto na escala de Richter de 7,4 arrasa o pouco que estava de pé, matando milhares, desalojando os restantes, deixando um cenário que nem a melhor guerra seria capaz de imitar.

O Futuro?

Será o futuro desta gente apenas uma continuação do que já era? Chegámos todos lá mais ou menos desorganizados, cheios de boas intenções, dar de comer e tratar as feridas, ajudar a enterrar os mortos e a limpar as ruas; continuar a lutar contra a fome dando comida e … depois? Será que os vamos abandonando ao seu destino, depois de reposta a miséria anterior a que já estavam habituados?

Mas porquê? Não podemos aprender com as muitas situações extremas, onde tentámos ajudar e ir um pouquinho mais longe? Afinal é um país pequeno, assim meio Portugal.  Ajudar, era, isso sim, ajudar a reconstruir de forma sustentada e a pensar em furacões, em falta de energia, ajudar era ter os nossos arquitetos e engenheiros planear construções a preços adequados, de construção fácil e capazes de aguentar e durar naquelas condições; ajudar era mostrar como tirar partido da terra de forma sustentada, tirar partido das condições climatéricas; ajudar, era levar o conhecimento até lá. Era ensinar a viver com condições dignas. Isso sim, era ajudar. Era nós darmos de nós não só o dinheiro, absolutamente essencial, mas também o conhecimento, era darmos o nosso tempo para contribuir de forma organizada na reconstrução daquele país. Lembrem-se de Niemeyer e da construção de Brasília: em 3 anos milhares de trabalhadores construiram uma cidade imensa, a capital do Brasil!

Se o apelo à ajuda for global, com um pouquinho de cada um, até podíamos fazer muito por eles. E quem sabe daí tirar uma lição sobre como ajudar os mais pobres, dos mais pobres neste mundo.