Category:Português’
O acordo e Miguel Sousa Tavares
- by Paula Barros
O Miguel Sousa Tavares tem finalmente um programa para expor a sua opinião. Pior! No que concerne ao Acordo ortográfico, o homem produz erros, só para fazer valer a sua opinião que claramente formou sem leituras prévias que lhe permitissem falar correctamente sobre este assunto.
Diz o sabido jornalista e pelos vistos escritor, que agora com o acordo vamos dizer fato em vez de facto. Pois nada mais errado! Só posso sugerir-lhe a leitura do meu artigo sobre o acordo ortográfico e a presença ou ausência da consoante muda.
É muito mau uma pessoa com o nível de influência dele vir dar informações erradas, que apenas levarão quem ainda não leu o acordo ortográfico a pensar que vai “escrever brasileiro” (sic). É mau, muito mau!
Escrever em Português (parte 3)
- by Paula Barros
Desculpem a demora na publicação da Parte 3!
Depois de falar sobre o hífen e as consoantes surdas temos os acentos. O novo acordo veio introduzir algumas (muito poucas) modificações no uso dos acentos.
Como sabem nós temos 4 acentos:
- ~ (pronúncia nasal) – lã:
- ^ (pronúncia fechada) – ciência, pê, (diferente de pé)
- ´ (abertura da vogal) – cá, pé, aí
- ` (gramatical) – à (preposição+artigo, como em “ir à (a+a) praia”);
Acento circunflexo ^
A alteração aqui é apenas relativa ao facto de agora ser considerada correta uma prática que já existia: como no Brasil palavras como tónica se pronunciam com vogal fechada, já se escreviam lá com o acento circunflexo. Agora as duas grafias estão corretas.
Acento agudo ´
Praticamente nada muda, só as palavras que o apresentavam para se distinguirem das suas homógrafas (com escrita igual), deixam de o ter, como por exemplo:
- para – a preposição, como em ir para ali; e para – do verbo parar, como ele para o carro.
- pelo – a preposição e artigo, como em ir pelo caminho; e pelo – substantivo, o pelo do cão.
Acento trema ¨
No Brasil havia o hábito de colocar o trema nos “u” a seguir a “q” ou “g” como em obliqüe. Agora este acento já não se usa em nenhuma das variantes do Português.
Ler as partes anteriores:
Escrever em Português, parte 1
Escrever em Português, parte 2
Ler a parte seguinte:
Escrever em Português, parte 4
Estás à procura de um dicionário?
- by Paula Barros
Há dicionários e dicionários. Grandes, pequenos, com imagens, enciclopédicos, académicos, escolares, eu sei lá!… Chega-se ali aos escaparates do hipermercado (porque isto de ir a uma livraria, era ontem – ou ainda como dizia um ex-formando meu: “já fostes!”) e olhando de cima abaixo há-os azuis, verdes, laranja (ora confessem: quem não têm um destes últimos lá em casa, hmm?) e agora: qual??
E como se deve escolher um dicionário, perguntam vocês?
Bem, depende. Depende do uso que vão dar ao dicionário. E garanto que podem ter vários (eu tenho 3 só de língua portuguesa) e acima de tudo podem comprar as novas edições porque as línguas evoluem a um ritmo fantástico! Estou a divagar. A ter em conta há dois primeiros critérios: o uso que lhe vão dar e para quem estão a comprar o dicionário. O custo, que para muitos é o primeiro critério, vai ficar para último, até porque sendo eu lexicógrafa, dou muito valor ao meu trabalho, como ao dos meus colegas e isso paga-se, meus amigos!
Os dicionários não são meras listagens de palavras com significados. São muito mais do que isso. Mas comecemos por essas listagens de palavras, ou melhor entradas, é assim que nos referimos às palavras que são listadas no dicionário -, depois é preciso trabalhá-las em função do público alvo e do objetivo do dicionário. Se o dicionário é para estrangeiros (crianças ou adultos) ou falantes da língua, se esses falantes são crianças, estudantes ou adultos, se estes são profissionais da área das línguas ou não. E assim o dicionário vai ganhado complexidade ou moldando o tratamento das palavras para melhor servir o público a que se destina: para crianças 10 000 a 20 000 palavras de vocabulário básico com significados simples e claros; para estrangeiros 15 000 a 25 000 palavras igualmente de vocabulário básico e também com significados claros, mas também o contexto em que as palavras se usam, exemplos de uso e alguns idiomatismos frequentes e também informação gramatical (como o feminino ou o plural, etc); para estudantes 20 000 a 40 000 já com algum vocabulário científico incluindo no tratamento das palavras mais riqueza de significados. Para o comum dos mortais que fala Português como língua materna um dicionário que inclua o que já foi mencionado mas para cerca de 80000 palavras que incluem várias áreas do saber. Já uma pessoa que trabalha com línguas necessita obrigatoriamente de um dicionário com pelo menos 200 000 palavras detalhadamente trabalhadas com o máximo de usos possível.
E assim chegamos ao preço. Fazer um dicionário não é como podem ver tarefa fácil, é preciso investir muito tempo (a título de exemplo, o último dicionário em que colaborei, de alemão-português com cerca de 80 000 palavras ocupou-nos – 3 colaboradores – 3 anos de trabalho a tempo inteiro). Por isso quanto maior e mais complexo o dicionário mais caro! Daí que este critério venha em último lugar.
Portanto que dicionário escolher? Pois depende do vosso objetivo e de quem vocês são: estrangeiro? ou escritor português? Enfim uma dica para encontrar o melhor dicionário: abram-no num verbo como fazer, olhar e vejam com os vários dicionários tratam esse verbo e escolham aquele que der a informação que precisam. É o mais caro? Meu amigo! Isso só significa que o vosso Português é dos caros!
Escrever em Português (parte 2)
- by Paula Barros
Aqui está a segunda parte sobre o acordo ortográfico. Depois do hífen ( se não leste, vai para Escrever em Português parte 1), temos as consoantes mudas, ou seja as letras que se escrevem, mas não se dizem.
consoantes mudas
Quando falamos de consoantes mudas, estamos a falar daquelas letras que aparecem nos grupos -cç-, -ct-, -pç-, pt. Apesar de serem escritas, nem sempre se pronunciam:
- acção direcção actual adopção óptimo
Nestas palavras, sem margem para qualquer dúvida, não se diz o “c” ou o “p”. Por isso este acordo vem estabelecer que, se não se pronunciam, então também não se escrevem:
- ação direção atual adoção ótimo
Esta mudança é a que tem levantado mais celeuma. Mas sem motivo: apenas deixamos de escrever nas palavras as letras que não dizemos! É só isso!
Nas palavras em que as dizemos, continuamos a escrevê-las, claro! Assim, é obrigatório escrevê-las em:
- secção facto pacto opção apto
Há ainda aquelas palavras em que essas letras tanto são pronunciadas como não. Por exemplo:
- recepção (no Brasil) e receção (em Portugal)
- acepção e aceção
- conceptual e concetual
Estas duas pronúncias das palavras podem existir tanto simultaneamente onde se fala português ou ser apenas características de um dos países, como no primeiro caso. Por isso, as duas escritas são possíveis. Basicamente passamos a escrever de acordo com a maneira como falamos: se as pronunciamos, escrevemo-las; se não as pronunciamos, não escrevemos!
Finalmente, e claro dependente destas regras, palavras do tipo da seguinte sofrem mais uma pequena alteração:
- assumpção >> assunção
ou seja como já não se escreve o -p-, então não podemos escrever o -m- anterior!
Sobram ainda os grupos -bd-, -gd-, -tm- e -mn- onde novamente, se não se pronuncia uma das letras, então também não se escreve; onde se pronuncia, então escreve-se! Por exemplo:
- amigdala e amídala (eu digo amígdala e vocês? E mais casos não me ocorrem agora)
Na base desta mudança (e das outras) está uma tentativa de aproximar a escrita – ortografia - da oralidade (e não como já ouvi, aproximar o Português de Portugal do Português do Brasil, ou por outra a escrita fica mais uniformizada, mas a oralidade continua a manter as suas características – eu digo características e não caraterísticas! - regionais bem claras!). Anteriormente baseavam-se as regras que orientavam a escrita – a ortografia, melhor dizendo - na origem das palavras, neste acordo tenta-se uma muito suave aproximação à língua falada, daí estas mudanças.
Ler Escrever em Português (parte 3) que trata dos acentos.
Escrever em Português (parte 1)
- by Paula Barros
Em janeiro entrou em vigor o novo acordo ortográfico, que orienta a forma como, a partir de agora, escrevemos em português. Apesar de parecer assustador, na prática o que mudou foi pouco. Assim as grandes mudanças são no uso do hífen (o tracinho), no uso daquelas letras que não se pronunciam mas se escreviam, e agora já não escrevem, alguns acentos que são alterados ou eliminados e alguns nomes que passam a ser escritos com minúscula.
hífen (-)
Agora escreve-se com hífen (o tracinho!) as palavras que são compostas por prefixo (coisas como anti-, micro-, semi- etc.) + palavra começada por “h” e palavras cujo prefixo acaba com vogal igual à palavra que se lhe segue:
- anti-heroi anti-histórico anti-hitlerismo, neo-helénico, semi-homem, etc.
- anti-inflamatório anti-infeccioso contra-ataque contra-asa contra-aviso intra-atómico micro-onda semi-
-inconsciente
E também no verbo “haver de”. Onde se escrevia hás-de, há-de, agora escreve-se hás de, há de.
Mantém-se com hífen todas as palavras começadas pelos prefixos ex-, pré-, pró-, bem- e não-:
- ex-acionista ex-aequo ex-cátedra ex-libris ex-marido ex-diretor
- pré-aviso pré-datado pré-escola pré-fabricado pré-história pré-seleção pré-fabricado
- pró-activo pró-ocidental pró-reitor
- bem-afortunado bem-disposto bem-estar bem-vindo
- não-alinhado não-cumprimento não-violência
Escrevem-se sem hífen as palavras começadas pelos restantes prefixos e por co- (mesmo se seguido por uma palavra começada por “o”):
- apropósito atempo autoimune autoestrada coacusado coautor cofundador cogerência contraindicação coocorrência coocupante copiloto extraescolar extraoficial infraestrutura intraósseo intrauterino minivestido neoexpressionista neoidealismo obrogar protoestrela subrotina supraestrutura ultraortodoxo
Nas palavras em que a segunda palavra começa por r ou s e o prefixo termina em vogal dobram-se essas consoantes -rr- e -ss-:
- antirreflexo antissocial autorretrato contrarrelógio corresponsabilidade corréu cosseno infrassom minissaia minissérie neorrealismo protorrevolução pseudorrevelação semirreboque semissom suprassumo ultrarrealista ultrassom
As palavras compostas como guarda-chuva, abóbora-menina, etc continuam a escrever-se desta forma. As locuções, ou seja expressões que entretanto se usam muito como “cão de guarda”, “cor de vinho” não se escrevem com hífen. Neste grupo foi considerado fim-de-semana que agora se escreve separado:
- fim-de-semana >> fim de semana (pessoalmente, não concordo nada com esta mudança, já que na minha opinião isto é não é uma locução, mas sim uma palavra composta à semelhança de tantas outras …)
Ler o capítulo seguinte: Escrever em Português (parte 2) ->
Aprender Línguas depois dos Quarenta
- by Paula Barros
A melhor altura para aprender uma língua é em criança. Ponto final. Portanto não se pensa mais no assunto. Nada podia ser mais errado. Todos podem aprendem uma língua independentemente da idade, de facto, nada indica que um adulto não seja capaz de aprender. Só não aprende como uma criança, porque não tem tempo…
As crianças e as línguas
Aprender a falar faz parte do crescimento, da socialização das crianças, para elas é um processo natural que começa por escutar, seguida da produção de sons até à formulação das palavras, das frases e finalmente dos enunciados em forma de textos descritivos ou narrativos. Se as ajudarmos e participarmos desse processo, elas vão aprender mais e desenvolver a linguagem mais facilmente, se não as ajudarmos e as limitarmos nas suas perguntas e dúvidas, para nós muitas vezes aborrecidas, incompreensíveis até, elas também vão desenvolver a linguagem mas mais lentamente ou com menos interesse.
A audição é o primeiro contacto com as línguas e as linguagens: a criança escuta e entende muito antes de começar a falar, depois vem a fase da produção de sons (antes disso, o choro é uma forma de falar) e lentamente a criança diz a primeira palavra, por regra algo próximo como “mamã” ou “papá” ou “olá”: afinal devem ser as palavras que mais ouve quando um adulto se lhe dirige. Depois vêm as palavras estranhas que só a família entende, o meu filho, com cerca de 2 anos chamava a tudo que tivesse botões “lhigólhigó”. Aos 4 anos faz frases curtas e esforça-se para contar um pequeno evento, para o qual lhe faltam ou palavras ou tempos verbais correctos ou estruturas condicionais por exemplo. Mas já pronuncia praticamente todos os sons correctamente -precisou de quase um ano para pronunciar o r intervocálico correctamente (aro, caro, pera, etc).
A necessidade de comunicar faz com que a vontade e motivação para aprender a língua dos pais e dos colegas seja muito forte e natural, não precisando de fazer trabalhos de casa para a aprender: nós vamos corrigindo à medida que ele se desenvolve.
Os adultos e as línguas
Já os adultos que dominam pelo menos uma língua, quando não duas pela aprendizagem escolar, estão um passo à frente das crianças no que respeita à produção de sons, sendo que em determinadas línguas há sons difíceis de produzir para falantes de outras línguas, – por exemplo os alemães do norte têm muita dificuldade em produzir o tal nosso r intervocálico, porque eles não o tem. Além disso, julgam que aprender uma língua deveria ser coisa rápida como para as crianças. Ora alto aí, se fizermos bem as contas a criança afinal precisou de pelo menos 4 anos para atingir um nível de quase proficiência!
Além disso a motivação dos adultos é regra geral menos urgente: querem aprender, porque gostam, porque querem entender melhor filmes, livros, canções na língua escolhida, porque acham que é um melhoramento na vida deles, mas raramente por necessidade imperiosa de comunicar. E, a não ser que sejam obrigados a emigrar para um contexto onde não se fale a sua língua materna, ou quando por motivos laborais sejam obrigados a enfrentar colegas que não falam a sua língua materna, o grau de motivação é como se pode ver muito inferior. Afinal querer não é o mesmo que ter necessidade de!
A melhor forma de aprender uma língua
Para conseguir aquilo que nos parece tão fácil a uma criança temos de certa forma fazer como a criança: primeiro sentir uma verdadeira necessidade de aprender e depois para nos facilitar esse processo, encontrar a nossa forma particular de aprender. Como adultos racionalizamos a informação e cada um de nós fá-lo à sua maneira, e se para uns a estrutura é fundamental, outros aprendem de forma intuitiva repetindo informações; outros ainda gostam de treinar vocábulos e depois treinar frases, outros não têm método de todo…. Além disso o ritmo de aprendizagem é naturalmente diferente. Para complicar achamos que deveríamos saber falar outra língua em menos de 1 ano.
Na minha opinião de formadora de línguas, a melhor forma de aprender em qualquer idade é usando um método muito simples: aplicar todos os nossos sentidos. Ouvir e ler numa língua e falar e escrever. A interacção com nativos ou falantes da língua é fundamental: porque é a necessidade de comunicar que nos agiliza a aprendizagem. Em alternativa métodos interactivos de multimédia podem ajudar a fortalecer esses conhecimentos, para depois podermos praticar: porque não tentar ajudar turistas falantes da língua que se está a aprender, em vez de responder com ar envergonhado, “não falo inglês!“