• Próximos Cursos

    Ainda o Acordo ( e sempre… ufa!)

    palavras de acordo com o novo acordo ortográfico

    Sou uma defensora do acordo ortográfico. Os meus amigos sabem disso! Não concordo com tudo o que lá vem, mas concordo com a maior parte. Aliás, eu teria ido bem mais longe, se querem saber! A fala, oralidade, linguagem oral não existe por causa da escrita. Dito de outra forma primeiro esteve a oralidade e depois a tentativa de registar essa oralidade. É assim para nós que falamos, é assim ao longo dos tempos.
    Querem exemplos? Ora aqui vamos:

    #1 Aprender a escrever

    As crianças quando iniciam a sua aprendizagem da escrita, já falam há pelo menos 4 anos e não sabem que a vogal antes de consoante é aberta por que está lá um mudo “c” ou “p”. Certo? Aliás,  têm dificuldade em entender o porquê de escrever um “c” antes de um “ç” ou outro “c”, quando essa letra não é dita. Muitos erros da escrita advêm do facto dos nossos gramáticos (não é a língua que o obriga, mas sim as pessoas que a tentam regularizar!) imporem regras etimológicas à escrita. Como se a escrita devesse sempre representar o passado da língua e não o que ela é: uma representação da língua falada.

    #2 A evolução da oralidade ao longo dos tempos

    A língua evolui. Não sendo um organismo vivo, é um “instrumento”1 criado e usado por organismos vivos: nós. Com o passar do tempo criamos palavras novas2, vamos buscar palavras a outras línguas, abandonamos outras palavras, mudamos-lhe aspetos da sua gramática e até vamos alterando os sons das suas palavras. Tudo isto acontece de forma natural, , hoje em dia cada vez de forma imposta pela influência dos “fazedores de opinião”. De repente todos gostamos de ideias fora da caixa, já não gostamos tanto de ideias criativas. Ou então é fácil arranjar almofadas para a situação económica, onde antigamente, além da vertente técnica da palavra,  estes objetos fofos apenas serviam para pousar a cabeça e dormir ou descansar ou decorar um sofá por exemplo. No sul do país tende-se a eliminar as vogais, sabem o que é Flip? É Filipe! Por isso a língua falada é quase como um organismo vivo e que uns tantos (não somos nós os falantes da língua) tentam domar pela escrita.

    #3 A evolução da escrita ao longo dos tempos

    Os primeiros exemplares de escrita surgiram com os ideogramas para representar objetos da vida real. O M por exemplo deriva de um hieróglifo egípcio que representava o som (palavra) do mar. A escrita servia às sociedades para registarem impostos, preços e quantidades. A escrita para comunicar começa por ser fonética (representa os sons da fala) – há também a ideográfica para os chineses por exemplo. Na idade média as primeiras gramáticas tentam fixar a língua oral e ao fazê-lo tentam igualmente registar a forma escrita de uma determinada palavra.

    No caso do Português, tentou-se portanto, procurar uma forma escrita para a nossa língua. Os eruditos decidiram que a língua escrita deveria refletir a etimologia (a origem da língua). Por isso escrevemos homem com h, porque os romanos o faziam. Ah! E já agora eles faziam-no, porque “era bem”!)

    É aqui que começa a tentativa de normalizar a língua por via da escrita normalizadora. Depois os dicionários fazem o resto. E enquanto a língua oral segue o seu caminho falado, evoluindo mais lentamente, a escrita pela mão dos intelectuais torna-se fina, fugindo dos padrões fonéticos (mais populares, digamos) para se reger pelos padrões etimológicos (mais cultos, de quem podia aprender o latim). Por isso, enquanto na oralidade não existe nenhum c antes de ç em “ação”, a escrita mantém-no por questões intelectualmente etimológicas. Por favor, não venham com a balela de que o c antes de consoante abre a vogal anterior: já vimos que a oralidade não se baseia na escrita!

    #4 O que acontece nas outras línguas

    Não sei! Ou melhor, sei em algumas: o alemão acabou de reformar a escrita, o francês, idem. O inglês (todos gostam de comparar o português ao inglês, não sei porquê!!!) não o faz, e o que acontece é que, como há cada vez mais falantes da língua nos mais diversos quadrantes, encontramos cada vez mais formas diferentes de escrever palavras em inglês.

    #Porquê a resistência à mudança?

    Olhem, muito simples! Porque temos medo da mudança. E sobretudo por acharmos que não vamos conseguir escrever da nova forma sem dar erros. Meu amigo! Os erros também fazem parte da vida e é com eles que aprendemos. A entrada do euro também não foi fácil, aliás ainda há gente a fazer contas em contos e tostões. E no entanto a vida continua com euros e vai continuar com o novo acordo, ou?

    ____

    1 há gente que não gosta de usar este termo para falar da língua…mas isso para aqui interessa pouco

    2 este é um dos pontos de que discordo com o Acordo pois elimina algumas palavras novas com hífen, tornando-as expressões. quando estas são perfeitamente identificáveis como palavras, com significado próprio e capacidade de género e número.

    Tagged , , , . Bookmark the permalink.

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *