Month: February 2010

Escrever em Português (parte 3)

 - by Paula Barros

Desculpem a demora na publicação da Parte 3!

Depois de falar sobre o hífen e as consoantes surdas temos os acentos. O novo acordo veio introduzir algumas (muito poucas) modificações no uso dos acentos.

Como sabem nós temos 4 acentos:

  • ~ (pronúncia nasal) – lã:
  • ^ (pronúncia fechada) – ciência, pê, (diferente de pé)
  • ´ (abertura da vogal) – cá, pé, aí
  • ` (gramatical) – à (preposição+artigo, como em “ir à (a+a) praia”);

Acento circunflexo ^

A alteração aqui é apenas relativa ao facto de agora ser considerada correta uma prática que já existia: como no Brasil palavras como tónica se pronunciam com vogal fechada, já se escreviam lá com o acento circunflexo. Agora as duas grafias estão corretas.

Acento agudo ´

Praticamente nada muda, só as palavras que o apresentavam para se distinguirem das suas homógrafas (com escrita igual), deixam de o ter, como por exemplo:

  • para – a preposição, como em ir para ali; e para – do verbo parar, como ele para o carro.
  • pelo – a preposição e artigo, como em ir pelo caminho; e pelo – substantivo, o pelo do cão.

Acento trema ¨

No Brasil havia o hábito de colocar o trema nos “u” a seguir a “q” ou “g” como em obliqüe. Agora este acento já não se usa em nenhuma das variantes do Português.

Ler as partes anteriores:
Escrever em Português, parte 1
Escrever em Português, parte 2
Ler a parte seguinte:
Escrever em Português, parte 4

Nos meandros da Internet

 - by Paula Barros

Quando o google fala, o mundo cala. E o bing também.
Acabei de assistir a um painel de conferencistas onde estava presente uma representante do Google, um do Bing, uma “SEOa“* (como eu, mas não novata como eu) e mais uns quantos.
No fundo resumiu-se às questões da relação do google com o povo (SEOs e utilizadores). E não deixa de ser interessante ver como todos (adoradores e opositores) ficam dependentes das poucas palavras que o google se dá ao luxo de deitar cá para fora.

*para quem não sabe, SEO significa “Search Engine Optimisation”. Portanto SEOa (palavra invantada por mim, não repitam!) é a profissional que tenta melhorar a presença de um determinado site no google…

Os Políticos, os Mercados e Nós

 - by NunoB

A semana passada falou-se muito de Orçamento, Mercados, Políticos e Loucos. Falou-se muito dos que falaram, dos que disseram que lhes disseram que outros disseram. Curiosamente, Aquele que não fala, falou ao Expresso, numa pouco habitual entrevista. No fim da semana as bolsas caíram porque os políticos falaram, pondo a nu um facto que não se quer ver – os mercados são independentes do poder político, são uma força incontrolável e implacável. Descarregam a sua ira sobre nós ao menor sinal de mau comportamento.

Os políticos falam, os mercados castigam-nos. E os políticos falam novamente e queixam-se dos mercados. São injustos para Portugal, diz o Presidente da República. São irracionais, diz o Ministro das Finanças, são loucos diz o Primeiro Ministro (esperem… não são os mercados que são loucos! É o Mário Crespo e o Medina Carreira!). Os meta-políticos – políticos da União Europeia – comparam Portugal e Espanha com a Grécia e vai daí os meta-mercados oscilam perigosamente; levantam-se tufões e pragas de gafanhotos.
Os mercados e os políticos. Estes salvam os bancos da crueldade daqueles, mas não se podem salvar a si próprios. Os mercados estão para os políticos como Deus está para os Homens (e Mulheres e Gays, já agora). Os mercados são cruéis, implacáveis, castigadores, mas simultaneamente têm desígnios incompreensíveis para o mero político e comum mortal e definitivamente escrevem direito por linhas tortas. Os mercados são adorados e simultaneamente temidos e a sua mão invisível (tal como a de Deus) pode ser pesada. E um Pai Nosso e duas Avé-Marias já não são suficientes para obter o redentor Perdão. É preciso muito mais, mas mesmo muito mais.

E nós? Qual o nosso papel nesta relação metafísica de forças? Nós somos os Porcos, ou melhor, os PIGS, que para quem não sabe, é o acrónimo pelo qual os analistas dos mercados – esses sacerdotes sacrificiais da modernidade – se referem a Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha (Spain). Pois nós somos ainda mais: os verdadeiros porcos, aqueles de Orwell, aqueles para os quais o único caminho é a Revolução.

Crédito online

 - by Paula Barros

Sabiam que a pesquisa por “crédito online” esta a crescer? E a crescer exponencialmente? Pois é verdade.
As dificuldades económicas dos portugueses começam a fazê-los virar-se para a net, na imparável busca de novos meios para chegar a dinheiro. Nem há trinta anos atrás recorria-se à D. Branca (lembram-se da história?), ou familiares ou talvez até bons amigos (fazendo com que as amizades, se tornassem elas próprias dívidas incobráveis…). Os bancos só davam a quem já tinha dinheiro, o comum dos portugueses, que apenas tinha o seu mensal, a isso não tinha direito.
Para ilustrar, quando eu tinha cerca de 24, e trabalhava já há um ano, pensei em comprar um apartamento. Fui ao meu banco, então o BPA, actual Millenium, creio, e a funcionária do banco disse-me logo com um sorriso benevolente que nada feito: o banco não emprestava dinheiro a profissionais liberais, sim, pois, esqueci-me de mencionar que apesar de ganhar bom dinheiro na altura, eu era profissional liberal: recibos verdes, ui, ui!
Poucos anos mais tarde, ainda profissional liberal, o BES, comprou-me o apartamento, sem tugir nem mugir, com crédito jovem, a 100%. Ora toma, que é para aprender!
Agora, pelos vistos, chegamos à era da net, e em desespero de causa, porque precisamos do dinheiro para ontem, senão o mesmo banco ainda nos põe fora de casa! Vai daí, recorremos à net, e pelos resultados do Google Insights os portugueses estão mesmo desesperadinhos à procura de dinheiro, já!

Máquina de fazer telenovelas

 - by Paula Barros

Uma cuspidela no lápis… ah, desculpem, hoje é: uma cuspidela nas pontas dos dedos, entrelaçar os dedos das mãos e estalá-los, esticam-se os braços e atacamos o teclado.  Ora saia lá uma telenovela fresquinha.

Já perderam tempo a ver uma telenovela portuguesa*?Pois vejam! Basta um ou dois episódios e podem ter uma ideia da qualidade da coisa. Deve ser como digo no título uma máquina de fazer telenovelas: a gente mete lá para dentro o tradicional: uma família rica, uma família pobre, a apaixonada, o apaixonado (que além de serem obsessivos, são à vez um da família rica, o outro da família pobre). Depois mistura-se ainda um braçado de personagens secundárias: o mau ou maus, tão mau (ou maus) que lhe(s) é permitido fazer coisas bem escabrosas – como apontar uma arma em plena praça central de uma cidade europeia -, sem que nada lhe aconteça: ora experimentem lá fazer tal e depois digam o que vos aconteceu! Temos ainda os ajudantes dos heróis, 2 ou 3 ou até mais, que são mais ou menos idiotas,  incapazes de contribuir para o desenrolar saudável da trama. Só complicam, são pobres de espírito, de tal forma que só apetece dar-lhes uns sopapos. Aliás, até aos famigerados heróis (os apaixonados, entenda-se) só apetece dar uns sopapos.   E finalmente as demais personagens: ui, que fraquinhos! (Mas temos de dar trabalho ao pessoal, senão as nossas muitas escolas de actores não tinham futuro).

Depois temos os diálogos. São tão fraquinhos!!! Mas pelo menos todos falam muito bem. Isto até que nem é mau! Mais vale ouví-los a dizer: “é demasiado doloroso!” do que “tá tudo fodido!” mesmo se parecer um pouco artificial.

Os cenários, esses pelo menos são (acho eu) bastante aceitáveis. As cidades não podem ser lá muito falsificadas, embora se tente, claro; e os interiores são geralmente bem caracterizados. Dá para ter uma ideia do que é que os portugueses gostam (isto porque penso que há este tipo de cuidado na preparação dos ditos.

E muito, muito mais havia a dizer sobre as máquinas de telenovelas (um dia compro uma!), mas não tenho tempo! Adeusinho e até à próxima, está na hora da telenovela!

*Não falo das brasileiras, que já não vejo há anos e deixo isso para os brasileiros!

Estás à procura de um dicionário?

 - by Paula Barros

notícia do dia - dicionáriosHá dicionários e dicionários. Grandes, pequenos, com imagens, enciclopédicos, académicos, escolares, eu sei lá!… Chega-se ali aos escaparates do hipermercado (porque isto de ir a uma livraria, era ontem – ou ainda como dizia um ex-formando meu: “já fostes!”) e olhando de cima abaixo há-os azuis, verdes, laranja (ora confessem: quem não têm um destes últimos lá em casa, hmm?) e agora: qual??

E como se deve escolher um dicionário, perguntam vocês?

Bem, depende. Depende do uso que vão dar ao dicionário. E garanto que podem ter vários (eu tenho 3 só de língua portuguesa) e acima de tudo podem comprar as novas edições porque as línguas evoluem a um ritmo fantástico! Estou a divagar. A ter em conta há dois primeiros critérios: o uso que lhe vão dar e para quem estão a comprar o dicionário. O custo, que para muitos é o primeiro critério, vai ficar para último, até porque sendo eu lexicógrafa, dou muito valor ao meu trabalho, como ao dos meus colegas e isso paga-se, meus amigos!

Os dicionários não são meras listagens de palavras com significados. São muito mais do que isso. Mas comecemos por essas listagens de palavras, ou melhor entradas, é assim que nos referimos às palavras que são listadas no dicionário -, depois é preciso trabalhá-las em função do público alvo e do objetivo do dicionário. Se o dicionário é para estrangeiros (crianças ou adultos) ou falantes da língua, se esses falantes são crianças, estudantes ou adultos, se estes são profissionais da área das línguas ou não.  E assim o dicionário vai ganhado complexidade ou moldando o tratamento das palavras para melhor servir o público a que se destina: para crianças 10 000 a 20 000 palavras de vocabulário básico com significados simples e claros; para estrangeiros 15 000 a 25 000 palavras igualmente de vocabulário básico e também com significados claros, mas também o contexto em que as palavras se usam, exemplos de uso e alguns idiomatismos frequentes e também informação gramatical (como o feminino ou o plural, etc); para estudantes 20 000 a 40 000 já com algum vocabulário científico incluindo no tratamento das palavras mais riqueza de significados. Para o comum dos mortais que fala Português como língua materna um dicionário que inclua o que já foi mencionado mas para cerca de 80000 palavras que incluem várias áreas do saber. Já uma pessoa que trabalha com línguas necessita obrigatoriamente de um dicionário com pelo menos 200 000 palavras detalhadamente trabalhadas com o máximo de usos possível.

E assim chegamos ao preço. Fazer um dicionário não é como podem ver tarefa fácil, é preciso investir muito tempo (a título de exemplo, o último dicionário em que colaborei, de alemão-português com cerca de 80 000 palavras ocupou-nos – 3 colaboradores – 3 anos de trabalho a tempo inteiro). Por isso quanto maior e mais complexo o dicionário mais caro! Daí que este critério venha em último lugar.

Portanto que dicionário escolher? Pois depende do vosso objetivo e de quem vocês são: estrangeiro? ou escritor português? Enfim uma dica para encontrar o melhor dicionário: abram-no num verbo como fazer, olhar e vejam com os vários dicionários tratam esse verbo e escolham aquele que der a informação que precisam. É o mais caro? Meu amigo! Isso só significa que o vosso Português é dos caros!